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Uma dúvida comum trazida pelos casais é se existe relação entre o tipo de sangue (A, B, AB e O, positivo ou negativo) e o processo reprodutivo. Para melhor responder essa pergunta, é preciso dividir a pergunta em partes.

A primeira delas diz respeito a compatibilidade do casal: ter o mesmo tipo de sangue é melhor ou pior?

Em relação a fertilidade, não existem evidências de que casais com tipos de sangue iguais ou diferentes entre si sejam mais ou menos férteis.

Já em relação a gestação, quando a mulher é negativa e o homem é positivo, existe a chance do bebê ser positivo. Esta situação, conhecida como incompatibilidade Rh, pode levar a anemia grave no feto, principalmente a partir da segunda gestação, e à icterícia neonatal (quando o bebê fica muito amarelo, quadro que pode comprometer seu desenvolvimento neurológico). Cabe lembrar que a situação oposta não traz problemas (mãe positiva com marido negativo) e que estes quadros graves felizmente podem ser prevenidos com o uso de uma injeção de anticorpos específicos que pode ser usada durante a gestação e se necessário, depois do parto ou de abortos. Além disso, quando se realiza tratamentos para infertilidade com espermatozoides ou óvulos doados, tendo portanto a oportunidade de escolha do tipo de sangue, deve-se tentar evitar a combinação citada acima.

A segunda parte da questão diz respeito ao impacto do tipo de sangue sobre a fertilidade, independente da compatibilidade do casal.

Existem alguns estudos que correlacionaram o tipo de sangue O com envelhecimento mais precoce do ovário (reserva ovariana diminuída) e o tipo de sangue A como um fator protetor contra esse envelhecimento ovariano. Essa característica estaria ligada a uma série se substâncias (enzimas e receptores) que são codificadas por genes que estão localizados próximos aos genes que codificam o tipo de sangue: essa proximidade poderia ser responsável por recombinações que interfeririam na fertilidade.

A terceira parte da questão se relaciona ao tipo de sangue e chance de o tratamento de reprodução assistida – em especial a fertilização in vitro – dar certo.

Existem alguns estudos retrospectivos que correlacionaram o tipo B com maior chance de o tratamento dar certo, mas as evidências para sustentar esse achado são muito fracas. Estudo recente que ainda está no prelo da renomada revista Fertility & Sterility, da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM), não encontrou qualquer relação entre o tipo de sangue e a chance de o tratamento de fertilização in vitro resultar em um bebê nascido-vivo.

Em suma, a preocupação sobre o tipo de  sangue deve ser apenas durante a gestação e para os casais cuja mulher é negativa e o marido positivo. Durante o período de tentativas de gravidez e tratamentos para infertilidade, isso se tornará uma questão a ser discutida apenas nos casos em que haverá uso de sêmen ou óvulos doados, a fim de direcionar a escolha.

 

Referências

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