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Estima-se que uma em cada quatro gestações podem evoluir para um aborto e muitas vezes, não descobrimos a causa, principalmente quando ocorre a eliminação espontânea. Ainda, essa taxa de aborto pode chegar até 40% quando incluímos as gestações que não foram diagnosticadas – perda gestacional muito precoce, e que por seleção natural, não evoluem. As perdas gestacionais que ocorrem até 8 semanas geralmente estão relacionadas com malformação embrionária e ao aborto de repetição.

A formação do embrião tem várias etapas como a divisão celular, alinhamento cromossômico, produção de energia celular. Mesmo pais com cariótipo normal – 46 XX e 46 XY podem formar embriões alterados, sendo que a alteração mais comum é a trissomia do 16.

A investigação da causa de abortamento geralmente é feita com dois abortos sucessivos e podem incluir:

– hemograma, glicemia, sorologias

– dosagens hormonais (TSH, prolactina)

– Cariótipo

– pesquisa de trombofilia e causas imunológicas

– pesquisa de anticorpos irregulares

– exames de imagem para avaliação uterina

– índice de fragmentação de DNA espermático

Um dos pais com alteração cromossômica, por exemplo, uma translocação balanceada, tem chance de 25% de formar um embrião alterado com translocação não balanceada.

Não fazemos de rotina em todos os abortos, mas em alguns casos, a análise do produto do abortamento pode ser importante para que possamos identificar outras causas de aborto, aconselhamento genético e melhor programação de uma gestação.

A história da paciente é importante: até quanto tempo a gestação evoluiu, se fez exame ultrassonográfico, a presença de saco gestacional, do embrião, de batimento cardíaco fetal ou perda gestacional tardia.  Assim, podemos dividir em dois grupos:

Causa de perda gestacional antes das 12 semanas:

– trombofilia

– imunológica

– Doenças crônicas (mau controle da diabetes, hipotireoidismo)

– genética

– infecciosas

Causa de perda gestacional após as 12 semanas:

– alteração anatômica do útero (útero bicorno, septo uterino)

– alteração da cavidade endometrial (mioma submucoso)

– incompetência istmo cervical

O intervalo ideal para engravidar após uma gestação a termo é em torno de 24 meses. Após um aborto, esse período é controverso. Pela Organização Mundial da Saúde (OMS), é de pelo menos 6 meses. A perda gestacional, além de causar danos psicológicos, pode também aumentar o risco de algumas patologias na próxima gravidez como trabalho de parto prematuro e pré-eclâmpsia.

Em uma metanálise publicada na Human Reproduction Uptade, onde 10 estudos foram incluídos, concluiu-se que um intervalo menor que seis meses entre o aborto e uma nova gestação estava associado a menores riscos de outro aborto espontâneo, parto prematuro e maior chance de nascido vivo. Uma razão para que isso ocorra, é a própria modificação de comportamento materno em relação a alimentação, atividade física, suplementos vitamínicos, para que se evite um outro abortamento.

Em relação em relação a risco de morte fetal, pré-eclâmpsia e baixo peso ao nascer, quando comparados os grupos que engravidaram antes de 6 meses, de 6 meses a 12 meses ou mais que 12 meses, não houve diferença estatística.

Contudo, não há estudos suficientes com intervalo menor que 3 meses. Assim, um intervalo entre 3 a 6 meses parece ideal para tentar engravidar novamente.

Essa decisão pode ser tomada em conjunto com seu médico, após avaliação do casal e identificação de possíveis causas, para garantir o bem estar materno e fetal.

Revisão de artigo: Interpregnancy interval following miscarriage and adverse pregnancy outcomes: systematic review and meta-analysis.  Chrishny Kangatharan, Saffi Labram, Sohinee Bhattacharya. Human Reproduction Update, pp. 1–11, 2016.