Tempo de Leitura: 4 minutos

Os óvulos ou embriões humanos podem ficar indefinidamente congelados sem perder o seu potencial para o desenvolvimento normal?

Muitas vezes já me parei pensando a respeito. Qual é o limite para essa “suspensão de estado evolutivo” que óvulos e embriões são submetidos?

A verdade é que mais estudos precisam ser realizados para testar até qual ponto vai a resiliência dos nossos óvulos e embriões.

Vamos falar um pouco sobre os processos de congelamento de óvulos e quais são as nossas limitações atuais.

Nitrogênio líquido e seus tanques

Quando o congelamento de um embrião de mamífero foi realizado pela primeira vez em 1960, ele se fez com um dos materiais mais frios possíveis: o nitrogênio líquido. Foi presumido que todos os processos biológicos seriam suspensos se as amostras fossem mantidas a tão baixas temperaturas.

O nitrogênio líquido evapora a -320 graus Fahrenheit, é barato, fácil de ser obtido e guardado, além de ser muito seguro o seu transporte. Para isso, precisamos de tanques pressurizados a vácuo. Assim, ao longo do dia, apenas um pequeno percentual do nitrogênio é perdido pela evaporação. Essas perdas podem ser repostas com a adição de mais nitrogênio líquido aos tanques.

Histórico do congelamento lento

Desde a década de 40, os cientistas já haviam congelado amostras de sêmen humano no nitrogênio líquido. Esse congelamento é relativamente simples, pois as células espermáticas são pequenas e contém muito pouco líquido em seu interior.

E isso faz toda a diferença porque quando a água congela, pequenos cristais de gelo são formados, e isso sabidamente danifica a célula. Portanto, congelar células grandes, com grande citoplasma, é muito mais complicado. O desafio é muito maior para óvulos (maiores células do corpo) e embriões.

Esse desafio foi parcialmente vencido com a adição de crioprotetores. As células eram banhadas com essas substancias “anti-congelamento” antes do seu congelamento. Assim, a temperatura era baixada pouco a pouco, o fluido crioprotetor era resfriado e os efeitos deletérios da técnica foram reduzidos. Essa foi a técnica utilizada por décadas (nos últimos anos a técnica vem sendo substituída pela vitrificação ou congelamento ultrarrápido).

Agora, que já sabemos que é possível realizar o congelamento com o menor dano possível às células, a pergunta é: por quanto tempo elas podem ficar congeladas?

Em 2010, foi reportada uma gravidez com um embrião que havia passado 20 anos congelado nos Estados Unidos.

Num estudo chinês de 2014, envolvendo mais de 3367 embriões, não foi encontrada diferença entre a taxa de sobrevivência ao descongelamento, taxa de gravidez, taxa de implantação, taxa de nascidos vivos e peso ao nascimento, em relação ao tempo de congelamento dos embriões (de 12 meses até mais de 48 meses).

Taxa de Implantação por embrião de acordo com o tempo de congelamento
Taxa de Implantação por embrião de acordo com o tempo de congelamento

Evoluindo para a Vitrificação

Apesar do sucesso da técnica de congelamento lento, ela demandava muito tempo, precisava de muitos equipamentos e nem todos óvulos e embriões sobreviviam ao descongelamento. Essas questões foram superadas com a técnica de congelamento ultrarrápido, chamada vitrificação. Ela permite o congelamento em segundos sem o risco da formação de cristais intracelulares.

Porém como qualquer avanço tecnológico, ela trouxe consigo novos desafios e preocupações.

No caso da vitrificaçao, as amostras devem permanecer imersas no nitrogênio líquido e livre de forças mecânicas sobre elas. O problema é que as amostras permanecem em tanques junto a outras amostras e que esses tanques têm que ser abertos pelos embriologistas para checar outras amostras e retirá-las para o seu uso. Além disso, o transporte de um laboratório a outro se torna muito mais delicado.

Há o risco também de o estado vitrificado da célula ser perdido com pequenas variações de temperaturas, mesmo que mínimas, como no caso de uma rápida exposição da palheta a temperatura ambiente.

É bem provável que os óvulos sejam mais sensíveis a essas variações do que os embriões.

Após o exposto fica a pergunta: os meus óvulos e embriões podem ser guardados por quanto tempo sem perder o seu potencial reprodutivo?

Provavelmente indefinidamente, porém métodos mais seguros de armazenamento que não variem a temperatura e previnam forças mecânicas atuando sobre as amostras precisam surgir. Aí sim a resposta talvez seja: eternamente.

Referências

Cohen J, Inge KL, Wiker SR, Wright G, Fehilly CB, Turner TG Jr. Duration of storage of cryopreserved human embryos. J In Vitro Fert Embryo Transf. 1988, 5:301-303.

Dowling-Lacey D, Mayer JF, Jones E, Bocca S, Stadtmauer L, Oehninger S. Live birth from a frozen–thawed pronuclear stage embryo almost 20 years after its cryopreservation. Fertil Steril 2011; 95: 1120.

Liu Q, Lian Y, Huang J, Ren X, Li M, Lin S, Liu P, Qiao J. The safety of long-term cryopreservation on slow-frozen early cleavage human embryos. J Assist Reprod Genet. 2014 Apr;31:471-475.