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Acredita-se que algumas mulheres não conseguem engravidar após reprodução assistida ou engravidam e abortam repetidamente porque apresentam uma resposta imune excessiva que impede o desenvolvimento do embrião.

Por isso, os corticosteroides (prednisona, por exemplo), que são drogas imunossupressoras, são muito usados em tratamentos para infertilidade.

Seu uso indiscriminado, entretanto, pode piorar os resultados do tratamento. Isso pode ocorrer porque o processo de implantação embrionária e gestação inicial são situações de resposta inflamatória e ativação imune controladas. Suprimir a imunidade, nesse caso, pode ser ruim.

O sistema imune precisa ser avisado da chegada de um corpo estranho (o embrião) e se preparar para tolerá-lo. Além disso, são as células do sistema imune que avisam ao útero que ele deve alterar sua conformação vascular de maneira a criar um fluxo de sangue satisfatório para a placenta, o que vai permitir que o feto tenha um crescimento adequado e que a gestação chegue até o termo.

O uso de imunossupressores, sem indicação, pode colocar todos esses processos sob risco. Deve ficar claro que abortamentos de repetição e falhas de implantação após fertilização in vitro não são indicações para seu uso.

As respostas para situações mais específicas estão contidas em uma interessante publicação da revista Human Reproduction, referência na área de infertilidade, que ainda está no prelo e deverá ser publicado em breve. Foi feita extensa revisão por um grupo australiano da Universidade de Adelaide, e os principais achados foram:

1- Usar corticosteroides associados a baixas doses de aspirina no período peri-implantacional  poderia beneficiar pessoas com auto-anticorpos (FAN ou ANA, anticardiolipina, antireoide e anticoagulante lúpico). A dose ideal está por ser definida. Para os demais grupos de pacientes, parece haver mais risco do que benefício.

2- Não há evidências claras de que pacientes com perfil de células NK uterinas desfavoráveis à implantação (CD56dim CD16+ elevadas e CD56brigth CD16- baixas) possam se beneficiar de corticosteroides

3- Os corticosteroides como a prednisolona são categoria D pelo FDA, ou seja, podem trazer riscos para o feto. Aumentam ainda o risco de abortamento, hipertensão, diabetes e parto prematuro.

Em suma, o uso do corticosteroide para pessoas que apresentam falha de implantação, aborto de repetição ou simplesmente estão se submetendo a reprodução assistida traz mais malefícios do que benefícios.

Existem indicações muito específicas. Conversar com um especialista em reprodução assistida sobre o seu caso e individualizar seu tratamento é o melhor caminho.

Referência

Sarah A. Robertson, Min Jin, Danqing Yu, Lachlan M. Moldenhauer, Michael J. Davies, M. Louise Hull, Robert J. Norman. Corticosteroid therapy in assisted reproduction – immune suppression is a faulty premise. Human Reproduction, 2016; DOI: 10.1093/humrep/dew186